NINGUÉM SE LIVRA DOS LIVROS: UMA ENTREVISTA COM ALEJANDRO DUJOVNE
- Marcia Rangel Candido
- 11 de set. de 2018
- 6 min de leitura

No começo do mês de agosto foi veiculada no periódico argentino Página 12 uma entrevista de Pablo Esteban com Alejandro Dujovne, especialista em história e sociologia do livro e da edição na América Latina e na Espanha e em história judaica moderna. Nesta pequena conversa, Dujovne contrasta diferentes formatos de produção escrita chamando atenção à permanente, embora cada vez mais desafiada, importância de publicações de livros. O papel dos editores e das editoras na definição de agendas acadêmicas e na conquista de legitimidade de trabalhos intelectuais aparece como tema central nas tensas relações entre o mercado editorial e as disciplinas científicas. Por outro lado, o sociólogo não se restringe a discutir aspectos econômicos da circulação do saber e ressalta uma falha específica entre profissionais com formação em áreas de humanas: a dificuldade de elaborar discursos inteligíveis ao público não acadêmico.
Com o intuito de estimular debates sobre o mercado editorial, assim como a leitura de sociólogos da Argentina, território vizinho e cheio de similaridades com o Brasil, apresentamos nesta publicação a versão em português da entrevista. Alejandro Dujovne é doutor em Ciências Sociais, pesquisador do CONICET e fundador e coordenador do Núcleo de Estudios sobre Historia y Sociología del Libro y la Edición del Instituto de Desarrollo Económico y Social (IDES). Esperamos que curtam a leitura!
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Os pesquisadores leem mais artigos de revistas científicas ou livros?
Apesar da ideia crescente do lugar que ocupa o artigo acadêmico como organizador do conhecimento em Ciências Sociais e Humanas, o livro continua desempenhando um papel central. Não obstante, em muitos casos é negado por uma tendência cientificista que só concebe o paper como suporte de produção, comunicação e circulação nacional e internacional do conhecimento.
Como isso se comprova?
Basta observar como está conformada a referência bibliográfica das teses de doutorado para perceber que - a maior parte - está composta por livros. Segundo estudo do PISAC (Programa de Pesquisa sobre a Sociedade Argentina Contemporânea), comprovou-se que os autores argentinos citam mais livros que artigos acadêmicos, inclusive nas próprias revistas de ciências sociais e humanidades; e isso é importante na medida em que possuem diferentes lógicas de produção.
A que livros se refere? A um como A Distinção de Pierre Bourdieu, que já vendeu centenas de milhares de cópias, ou a um exemplar escrito por um jovem sociólogo argentino recém-publicado?
Existem níveis de reconhecimento e consagração: a trajetória dos autores faz com que uma obra seja mais ou menos valiosa. Um autor pode publicar muitíssimos livros, mas se alguma vez, por um motivo particular, uma de suas publicações adquire relevância de forma inesperada, pode causar um movimento fenomenal que faz com que toda sua obra – de maneira retroativa – seja percebida de um modo distinto. Diferente do que ocorre com um artigo acadêmico, o livro consegue cristalizar todo o esforço e a qualidade das reflexões, outorgar maior visibilidade e permanência no tempo.
No entanto, o sistema científico incentiva mais a produção de artigos.
Sim, mas isso não ocorre em todos os países de forma igual. Nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, um pesquisador só pode chegar a determinadas posições de poder na academia depois de publicar livros. Entretanto, ao menos para os cientistas sociais, o livro constitui um objeto desejado e desejável, que funciona como a cereja do bolo em um trabalho importante. Às vezes, terminamos sendo mais papistas que o papa quando superestimamos os artigos acadêmicos em detrimento dos livros.
Qual papel têm as editoras? Algumas, por seu prestígio, asseguram um nível de vendas considerável independentemente do conteúdo publicado.
Existe um sistema de hierarquização dos selos editoriais. Diferente das revistas – que obtêm reputação e autoridade pelo modo como estão indexadas -, nos livros tudo está menos normalizado; e, com efeito, as editoras são fundamentais na possibilidade que os autores têm de serem lidos. Não é a mesma coisa um livro publicado por uma editora que ocupa um lugar central no mercado, que tem sua história e seu nome; que uma que recém começou. O mesmo texto publicado por uma editora sem visibilidade ou em uma muito consagrada, pode, respectivamente, passar absolutamente despercebido ou então ser muito valorizado e vir a integrar os programas de doutorado de todos os cursos. Em um mercado editorial como o argentino - dependente de alguns centros produtores de ideias e reflexões (França, com Foucault, Bourdieu, Barthes, Lacan) – a tradução ocupa um lugar central. Como nem todos falam francês, as editoras têm um papel chave no momento de montar repertórios bibliográficos.
No entanto, de toda a produção científica francesa, para citar um exemplo, as editoras argentinas publicam porcentagens pequenas. Com base nessas seleções se constroem agendas temáticas de pesquisa e linhas teóricas inteiras.
De fato, os editores têm um poder muito maior que aquele que nós pesquisadores em Ciências Sociais e Humanas gostaríamos de reconhecer. São agentes invisíveis que têm uma enorme capacidade de definir agendas acadêmicas. Assim, quando o mercado está em crise – como sucede na atualidade – concentram-se na edição de produtos que tenham uma visibilidade comercial mais ou menos assegurada.
Como se combinam os interesses econômicos dos selos editoriais com os objetivos dos pesquisadores?
A ênfase no papel dos editores não desloca a academia do lugar que ela ocupa. Há modas, vínculos internacionais, projetos, temas estratégicos, mas também liberdades e autonomias que operam como fatores decisivos com base nos quais os pesquisadores escolhem seus temas. De fato, isso não quer dizer que todas as pesquisas culminarão em livro. Ademais, tampouco temos um mercado editorial com envergadura suficiente para bancar a totalidade das produções do sistema acadêmico.
Nesta linha, em que medida a linguagem utilizada pelos pesquisadores limita suas chances de serem lidos? De forma concreta, para quem escrevem os sociólogos, antropólogos e comunicólogos que não são Bourdieu?
Existe uma falta de treinamento dos pesquisadores para o exercício da escrita e da busca da intervenção pública. Embora tenha melhorado nos últimos anos, ainda se constitui como uma característica deficitária. Nos Estados Unidos, a edição acadêmica se dá sob a lógica da University Press, um modelo que – praticamente – não se comercializa em livrarias comuns, mas é orientada para o público universitário. Na Argentina, pelo contrário, a tradição se deve muito ao modelo de José Boris Spivacow, que fez história na Eudeba, ao cultivar a ideia de uma universidade que abre suas portas e intervém no espaço público através dos livros mais amenos (legíveis) e acessíveis (baratos). As editoras de livros acadêmicos na Argentina buscam ter participação nas livrarias importantes e isso permite entrever seus propósitos de conquistar um público mais amplo, embora jamais massivo.
Não obstante, há editoras para todos os gostos. Algumas publicam teses sem nem sequer mudar uma vírgula de lugar.
Como em todas as áreas: algumas publicam com sérios erros de digitação enquanto outras se caracterizam por estarem muito próximas dos autores e lhes demandam uma quantidade de páginas precisa; lhes solicitam modificar a escrita; reduzir a quantidade de citações etc. Existem até algumas que escolhem diretamente o título. E isto de alguma forma é bom: os editores estão treinados no desenvolvimento de estratégias para fazer ingressar esses produtos em um circuito comercial que é muito distinto do acadêmico
Talvez, afinal, a pergunta não seja tanto “para que a ciência?”, mas “para quem a ciência?”.
É possível. Se trata de como nós pesquisadores conseguimos ampliar a capacidade de nossas intervenções públicas. No entanto, cabe aclarar: é um erro esperar “utilidade” como único critério de validação social destas disciplinas. A utilidade se aplica, naturalmente, a muitas pesquisas na medida em que possam ter um uso mais ou menos direto na resolução de um problema. Mas, sem dúvidas, o valor não se esgota aí, pois, uma parte substancial da contribuição está na ampliação de sentidos e em uma compreensão mais complexa dos fenômenos sociais.- Por fim, como o processo de digitalização e a expansão dos livros “piratas” afetam o mercado editorial? Na Argentina não está tão presente o conflito dos livros falsos como acontece em outros países. No entanto, a digitalização – junto a outras mudanças tecnológicas – gerou um verdadeiro problema: assim que alguém se inscreve em um programa de pós-graduação, já tem à disposição a pasta completa com os textos digitalizados.
E isso, entre outros fatores, contribui para a crise do mercado editorial.
Estamos diante da reconfiguração do mercado editorial e da perda de sua capacidade de inserção no cenário internacional, tendo como base os baixos índices de exportação. A este problema estrutural se soma um conjuntural vinculado ao incremento dos custos de produção (papel e taxas) e falta de políticas públicas para o setor. Como resultado, o livro se torna inacessível.
O que ler para conhecer:
DUJOVNE, Alejandro. (2017). “Campo Editorial y Traducción: valor y formación de valor de la traducción em las ciencias sociales y humanas en Argentina (1990-2011). Desarrollo Económico, v.56, n.220, p. 443-468. Disponível aqui.
____________________. (2016). “La máquina de traducir. Eudeba y la modernización de las ciencias sociales y humanas, 1958-1966”. Papeles de Trabajo, 10 (18), pp. 123-144. Disponível aqui.
____________________. (2014). Una historia del libro judío: la cultura judía argentina a través de sus editores, libreros, traductores, imprentas e bibliotecas. Buenos Aires: Siglo XXI.
DUJOVNE, Alejandro. OSTROVIESKY, Heber. SORÁ, Gustavo. (2014). “La traducción de autores franceses de ciencias sociales y humanidades en Argentina: Estado y perspectivas actuales de una presencia invariante”. Bibliodiversity – Translation and Globalization, p.20-30. Disponível aqui.
DUJOVNE, Alejandro. GARCIA, Diego. (2009/2011). “Introducción a la “Literatura mundial””. Políticas de la Memoria, n. 10/11/12, p. 31-37. Disponível aqui.
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Editores responsáveis: Leonardo Nóbrega e Marcia Rangel Candido